19/10 11:22

Uma história que já pertence ao mundo: LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais)

Por institutoestre

No dia 12 de Outubro, Dia das Crianças, o Parque do Taquaral, em Campinas, recebeu mais uma ação do Instituto Estre, o espetáculo Histórias para Pertencer ao Mundo, com Kiara Terra. Desta vez, havia algo especial naquela apresentação: seria a primeira vez que uma intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) iria protagonizar, ao lado de Kiara Terra, as narrativas do espetáculo interativo, conferindo acessibilidade para crianças e adultos surdos que quisessem participar.

A viabilização da intérprete só aconteceu graças à uma pessoa: Rosana Nunes. Ela é intérprete e professora de LIBRAS no Espaço Cultura Surda, na mesma cidade do espetáculo, e por acaso estava navegando na internet quando viu a divulgação da contação de histórias para outra data. Diante da ciência da existência de 48 mil surdos em sua cidade, decidiu então comentar sobre o porquê de não haver a tradução, e prontamente o Instituto Estre decidiu atender ao pedido e pôs-se a articular sua rede de parceiros na cidade para propiciar a Rosana e aos 4,5% da população surda de Campinas um espetáculo inédito, com a presença de um profissional em LIBRAS. “Fiquei muito feliz quando vi a publicação de que haveria LIBRAS no dia das Crianças”, conta Rosana, “disparei para vários amigos”, completa a professora, que já perdeu a conta de quantas vezes tentou incluir sua comunidade por meio de pedidos e nunca teve resposta. “As crianças estão aí, querem e precisam ter contato com a cultura“, defende.

Cínthia Firmino Ferreira, sócia de Rosana, é surda e explica que LIBRAS não é uma linguagem universal. “Cada país tem a sua e existe independente da língua portuguesa: tem a Língua Gestual Portuguesa em Portugal, a Língua de Sinais Americana, Colombiana, Argentina, e cada uma tem seus gestos”, explica a docente. Isso certamente dificulta o aprendizado, que depende das aulas e do contato com a comunidade surda, conta Cínthia, que sonha com a obrigatoriedade do idioma nas escolas, para o Brasil se tornar um país bilíngue e acessível.

Cínthia também defende a importância da inclusão da população surda. “Nos sentimos muito felizes, afinal somos constantemente excluídos de eventos culturais, e ver que pudemos mostrar essa necessidade e a mesma ter sido considerada importante pelo Instituto nos mostra que existem pessoas que nos veem como cidadãos”, alegra-se.  “Não estamos acostumados a pedir e receber a resposta de forma tão rápida, sem precisar exigir e falar das leis”, acrescenta. “No momento em que você aceita a minha língua, você me aceita como surda, e essa aceitação nos faz sentir parte, verdadeiramente viver essa palavrinha bonita, mas muito difícil de ser colocada em prática, que é a inclusão”, conclui com sabedoria a sócia de Rosana.

A interprete Sabrina Caires, responsável pela tradução, também deixa seu depoimento: “O espetáculo Histórias para Pertencer ao Mundo promoveu a eliminação de barreiras e garantiu o direito de acesso à informação, à comunicação, e principalmente à cultura e ao lazer”, descreve a intérprete. “Foi uma experiência incrível, pois além de surdos, tivemos estudantes de Libras, e contar histórias com a Kiara Terra sempre é encantador”, coloca a docente-atriz, que é professora de Libras na Faculdade Paulista de Artes e Famosp, diretora teatral de espetáculos bilíngues.

DICAS DE CÍNTHIA

Cínthia deixa algumas dicas para quem quiser incluir a população surda em um evento cultural:

Precisamos não só que o intérprete esteja presente, como também que seja uma pessoa treinada a trabalhar nesta área;
Ao ver o intérprete, preciso ver e sentir como aquele personagem está sendo representado, por isso o correto é que o intérprete ensaie junto e conheça cada personagem;
A localização e a iluminação do intérprete são fatores importantes;
Em conferências e palestras importantes, o intérprete deve ter acesso ao conteúdo.