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No dia do gari, conheça a rotina de Valéria

Por institutoestre

 

Dia 16 de maio é o Dia do Gari, a profissão que mais vêm à mente das pessoas quando o assunto é lixo ou limpeza. Quem se recorda daquele varredor sambando na Sapucaí, esbanjando alegria enquanto limpava a avenida, em plena quarta-feira de cinzas, após o desfile de Carnaval, em 2007?

Na realidade, “gari” é o nome popular para o varredor ou varredora de rua, e nasceu do sobrenome de Pedro Aleixo Gari. Pedro foi o primeiro a fechar um contrato público de limpeza urbana, ainda na época do Brasil império (1876). Sempre que os cavalos passavam, chamavam a “turma do Gari” para limpar. Na realidade, hoje em dia, varredor – ou varredora -, é o verdadeiro nome da ocupação do profissional que varre a rua.

Valéria Ribeiro de Lima é a nossa gari homenageada neste 16 de maio, e conta nesta reportagem um pouco sobre como funciona a rotina de uma varredora de rua que trabalha em uma das cidades mais reconhecidas pela cidadania e sustentabilidade: Curitiba, no Paraná.

Há exatos seis anos, Valéria vinha do Rio de Janeiro para tentar ganhar a vida em Curitiba como balconista. Isso até o dia em que ficou sabendo que, como varredora, poderia ganhar um pouco mais. O que ela não sabia é que sua nova ocupação lhe traria muitas outras alegrias. “Mudou bastante, pois eu soube da escola que tinha na Empresa, fui aprender e me formei no ensino médio. Já tirei meu diploma, e agora faço curso técnico em enfermagem”, conta a gari, colabora da Estre Ambiental, referindo-se ao programa Tempo de Aprender, que oferece educação formal aos seus funcionários.

O dia de Valéria começa cedo, às 6h, quando acorda, pega o ônibus e encontra seus colegas na central, onde toma seu café em vinte minutos e bate seu cartão por volta de 7h20. Há um ano, foi designada para varrer as ruas próximas ao Teatro Guaíra, onde normalmente faz o pit-stop para tomar água durante o serviço.

“Pego meu carrinho, minha vassoura, pá de lixo, meus EPIs [equipamentos de proteção individual] e vou para o meu setor”, explica Valéria. Entre os EPIs, estão a capa de chuva, o uniforme e as luvas. Sobre produtos de limpeza, Valéria já esclarece: “Não tem nada não, só vassoura e pá, porque eu varro a rua, então não tem nada para usar produto”, conta.

Vinte minutos após bater o cartão, já está em seu setor, onde tem a missão de limpar por volta de 12 quadras – 6 para cada lado -, duas vezes no dia. “Varremos seis quadras de um lado, de outro, e saímos para fazer o horário do almoço. Depois, voltamos e fazemos as 12 de volta”, conta. “Nosso veículo é o carrinho de lixo”, brinca.

O setor de cada gari é previamente especificado pela Empresa, e fiscalizado pelo “sucessor”, que é o profissional que verifica o trabalho dos colegas de Valéria. As mudanças do setor da varrição interferem diretamente na relação que ela constrói com as pessoas da vizinhança que limpa. “É tipo a casa da gente, que já sabe onde faz, o que faz, e já conheço as pessoas que ficam ali nos estabelecimentos. Eles dão bom dia, podemos tomar uma água, usar o banheiro”, enumera.

Valéria levantou um ponto importante sobre a limpeza das ruas. Disse que o que dá mais trabalho de limpar é o “meio-fio”, aquele degrau da sarjeta que divide o passeio para pedestres da rua. “Todo mundo tenta limpar sua própria calçada, mas vai empurrando o lixo para o meio-fio, e não sabe que prejudica. Tem que pegar, não é só varrer”, alerta a gari, explicando que a sujeira vai para o bueiro e para o sistema de tratamento de água, gerando muitos gastos.

Sobre o tratamento que recebe da vizinhança, ela não tem nada a reclamar. Não se envergonha do que faz e alega que as pessoas, no geral, a tratam bem. “Sempre vai ter gente ignorante, mas os outros são bem legais”, diz, “varro até às 15h20, fecho o carrinho, arrumo a vassoura, o material e volto para deixar as coisas. E aí é ‘viação canela’”, refere-se brincando ao retorno para casa, feito por conta própria, a pé.

Por outro lado, nem tudo são flores. A parte que Valéria menos gosta de seu trabalho é a limpeza das lixeiras. “Tem de tudo, né? Rato morto, fezes humanas, tudo. A gente tira, esvazia dentro do carrinho, sacode, mas não põe a mão dentro”, esmiúça a varredora, que também tem que amarrar os sacos conforme vão enchendo para que os coletores possam pegar.

Mas esses episódios desabonadores pelos quais ela passa são diariamente compensados no momento em que toma seu banho para trocar seu uniforme pelo jaleco branco e ir para seu curso de técnica de enfermagem. “A sensação de tomar banho é de missão cumprida. Independente de crescimento, é um serviço que me permite levar o alimento para casa, e suprir todas as minhas necessidades. Fico feliz porque cumpri minha meta e posso ser reconhecida”, contenta-se.

Neste dia 16 de maio de 2017, dia do gari, Valéria está trabalhando, pois mesmo com a data comemorativa, os varredores não têm folga. Em compensação, há uma bonificação pela data. “Em fevereiro, a gente recebe uma bonificação pelo dia do gari”, entrega “mas quando chega o dia mesmo, já não tenho mais nada (risos)”, finaliza com bom humor.

Para encerrar o dia desta pessoa tão especial e necessária para a sociedade, Valéria deixa sua mensagem: “É muito importante a gente separar o lixo para não contaminarmos a natureza, o meio ambiente e para prevenirmos várias doenças. E faça seu trabalho com amor, sem deixar de sonhar ou de lutar”.

 

O roubo do carrinho, por Valéria Ribeiro de Lima

Valéria conta que uma vez teve seu carrinho roubado. Leia a história contada pela própria varredora:

“A gente deixa o carrinho próximo ao lugar que a gente vai almoçar. Nesse dia eu fui no restaurante almoçar e voltei, e cadê o carrinho? Tinham levado embora! A sorte é que um taxista viu o carrinho e um louco levando, e parou o homem e segurou o carrinho. Quando saí do almoço, o rapaz da pipoca falou ‘ele subiu para lá, mas o taxista já pegou o seu carrinho”.